Compras o bilhete. Pagas as pipocas. Entras na sala e mergulhas na cadeira escura, para lá ficar durante um tempo. Uma, duas horas... três, por vezes. E a cadeira começa o seu ritual de envolvimento. Aquece durante a publicidade, molda-se durante as apresentações de "upcoming movies" (banalmente denomindados "trailers") e está pronta para ti no instante em que o filme começa. E envolve-te. A luz apaga-se de modo a desligar-te do mundo, daquele lá fora, mesmo ao virar da esquina, à distância de uma porta. Esse mundo que, no clique de um interruptor se afasta para o infinito e se torna névoa. Névoa cerrada, lá longe, para lá da meta do pensamento. E depois, a alma abre-se para absorver os sentimentos que ocorrem no ecrã, naquela tela que toma o lugar do mundo. Uma tela plana, um filme e uma cadeira que te envolve é o suficiente para te desligares do mundo. Não tens limites para te colocares na pele da personagem e viver as suas emoções. De roubar emoções, ou simplesmente de as pedir emprestadas. Não pagas bilhete e viajas até aos locais mais fantásticos e mais aterradores. Podes desligar a noite e ligar o dia. Podes amar os sentimentos que, na realidade, odeias. E podes saber tudo - o teu mundo restringe-se à sala de cinema e, talvez por isso, a tua sabedoria também. E o teu futuro, bem... o teu futuro nem sequer interessa.
Desligaste-o, juntamente com o mundo que virou névoa. As incertezas deixam de se encaixar e as certezas, essas raridades, vêm como setas ininterruptas e atingem-te em cheio. E só tens de respirar, ver o filme, sentir a história, viver as personagens e usufruir do conforto da tal cadeira que te envolve. Apagas o mundo. Por umas horas, tão poucas que sejam. E quando o filme acaba e as luzes se acendem, tens de o aceitar de novo. Tens de aceitar o mundo, as incertezas, o futuro e os sentimentos que odeias. Nostalgia.
Nostalgia de fim de filme. Nostalgia de (re)aceitação de uma vida, de um mundo, denominados reais. Sem esquecer, obviamente, que tens de te levantar e
abandonar a tal cadeira.
Uma amante de cinema.
PS: E se a tua vida fosse um filme?