February 23, 2010

Nostalgia de fim de filme.

Compras o bilhete. Pagas as pipocas. Entras na sala e mergulhas na cadeira escura, para lá ficar durante um tempo. Uma, duas horas... três, por vezes. E a cadeira começa o seu ritual de envolvimento. Aquece durante a publicidade, molda-se durante as apresentações de "upcoming movies" (banalmente denomindados "trailers") e está pronta para ti no instante em que o filme começa. E envolve-te. A luz apaga-se de modo a desligar-te do mundo, daquele lá fora, mesmo ao virar da esquina, à distância de uma porta. Esse mundo que, no clique de um interruptor se afasta para o infinito e se torna névoa. Névoa cerrada, lá longe, para lá da meta do pensamento. E depois, a alma abre-se para absorver os sentimentos que ocorrem no ecrã, naquela tela que toma o lugar do mundo. Uma tela plana, um filme e uma cadeira que te envolve é o suficiente para te desligares do mundo. Não tens limites para te colocares na pele da personagem e viver as suas emoções. De roubar emoções, ou simplesmente de as pedir emprestadas. Não pagas bilhete e viajas até aos locais mais fantásticos e mais aterradores. Podes desligar a noite e ligar o dia. Podes amar os sentimentos que, na realidade, odeias. E podes saber tudo - o teu mundo restringe-se à sala de cinema e, talvez por isso, a tua sabedoria também. E o teu futuro, bem... o teu futuro nem sequer interessa. Desligaste-o, juntamente com o mundo que virou névoa. As incertezas deixam de se encaixar e as certezas, essas raridades, vêm como setas ininterruptas e atingem-te em cheio. E só tens de respirar, ver o filme, sentir a história, viver as personagens e usufruir do conforto da tal cadeira que te envolve. Apagas o mundo. Por umas horas, tão poucas que sejam. E quando o filme acaba e as luzes se acendem, tens de o aceitar de novo. Tens de aceitar o mundo, as incertezas, o futuro e os sentimentos que odeias. Nostalgia. Nostalgia de fim de filme. Nostalgia de (re)aceitação de uma vida, de um mundo, denominados reais. Sem esquecer, obviamente, que tens de te levantar e abandonar a tal cadeira.

Uma amante de cinema.

PS: E se a tua vida fosse um filme?

February 16, 2010

Apresentação (In) formal


Sou eu, apenas eu, e tenho olhos castanhos. Os olhos castanhos banais, que à luz do sol se revelam um pouco mais interessantes devido aos raios mais claros que se formam com a retracção da pupila. Mas sou eu, e tenho os olhos castanhos banais, um pouco mais interessantes e claros quando a luz do sol lhes embate. Sou a rapariga que de vez em quando se perde nos caminhos tortuosos e numerosos da personalidade, aquela que tem o hábito de se camuflar à medida que o palco da vida aloja diferentes peças. E as diferentes peças albergam diferentes personagens. E eu sou todas e sou só uma. Apaixonada pelas artes, as minhas paixões baseiam-se em dar vida às palavras e à expressão. Gosto de pegar nelas e de as baralhar de forma a ordená-las, a sincronizá-las à minha única e só maneira. Gosto de as sentir, o seu calor, o seu frio, a sua obtusidade e a facilidade com que se encaixam. Desespero quando a inspiração, essa minha grande amiga, tira férias e tenho dúvidas, muitas dúvidas no que toca à qualidade do que escrevo, à melodia que componho com as minhas amadas palavras. O meu espírito enche-se de luz quando sou reconhecida uma vez que me fio nas minhas personagens para controlarem todo o guião à minha volta e são raras as pessoas que me conhecem realmente. Porque eu sou todas e sou só uma. E o segredo está no olhar, no olhar castanho banal, mais claro e interessante à luz do sol. Eu sou aquela que consegue domar todos os elementos do corpo para que representem algo que não eu, mas tenho sempre uma dimensão do olhar guardada para verdade, porque essa, sim… essa nunca me abandona. Qualquer bocadinho me magoa, qualquer caco de vidro me corta, qualquer encontrão me esmaga, qualquer pedra me danifica… sou o cúmulo da sensibilidade. Entrego-me de corpo e alma e consigo ferir ambos, conseguem ferir-me ambos, ao mínimo colapso. Albergo a paixão assolapada entre as lágrimas e os meus olhos que a qualquer pretexto se unem para me limpar a alma. A palavra amizade está no quadro de honra do meu vocabulário e talvez por isso mesmo é uma das que uso menos. Encontra-se reservada a casos especiais de pessoas que me marcam, que me apoiam, que me acompanham e que a retribuem para mim também. Pessoas de olhos de todas as cores com a sua grande dimensão de verdade e que me permitem atingi-la. Tenho um coração relativamente grande que gosta de se encher adiantadamente de muitos sentimentos e que tem a mania de elevar ao quadrado as emoções. Penso demais e estudo cada caso ao milímetro e tal facto consegue tornar-se um problema dos grandes. Não sou de momentos, sou de etapas, de degraus bem altos, de montanhas que escalo com prudência. Adoro dias de muito sol e vivo literalmente os dias de tempestade, já os de meio-termo conseguem confundir-me. A minha maior certeza é que vivo rodeada de incertezas. E que sou eu, a rapariga dos olhos castanhos.