May 19, 2013

O meu adulto pesadelo infantil

Quando somos crianças, há sempre um pesadelo que se repete. Vamos para a cama aterrorizados com o que está para vir. É uma bruxa que entra pela porta do quarto, uma queda sem chão, uma multidão de pessoas desconhecidas que falam para ti. É só um pesadelo, esse que se esconde nas sombras mais escuras do subconsciente e desperta sem avisar. Existe, durante semanas, meses, por vezes anos. E assombra.

Regressou. Não literalmente na forma de pesadelo que me acorda quando durmo, mas aqui para me habitar dolorosamente na parte detrás da mente. Diz-me que já não sei escrever. Que as palavras estão presas no nevoeiro denso de uma linguagem que não é minha e que me rouba a voz. Ataca-me quando as ideias surgem e sinto necessidade de as expressar. Mantêm-me afastada da caneta e, como num pesadelo infantil, fá-la desvanecer-se para um vácuo qualquer de uma dimensão desconhecida sempre que a tento alcançar. As palavras são sabonetes eternamente escorregadios. É o meu pesadelo. O medo aterrorizador que todas as palavras sejam sabonetes, e que o meu engenho que as conjuga perca a agilidade por falta de uso.

Selei a promessa que as palavras vão preencher o que resta de branco no meu bloco de pensamentos até ao final do ano. Rezo para que a densidade da língua intrusa não me embacie o campo de expressão. E para que o pesadelo me deixe, porque já não tenho idade para isto.