December 04, 2012

Bicho

Ainda não consegui perceber se ter pegado na caneta foi um escape subtil a mergulhar nos livros de história. Tão pouco apetecíveis que eles são neste momento. Não interessa, realmente.
Peguei na caneta. Está feito, não há bilhete de regresso. Tenho-a entre os dedos e há algo que a move - esta força invisível que vem de um pedaço de vácuo qualquer, cá dentro.
Ainda não percebi que raio de bicho é este que tão constantemente me perturba e tão inconstantemente se deixa libertar. Que forma tem? E o que pretende?
Não se sincroniza com nenhum estado de espírito em particular - é todos eles sem ser nenhum. Não se deixa afectar pela hora do dia - ainda não entendi se gosta de ser iluminado ou permanecer na sombra. Não tem género - são relatos de momentos marcantes, floreados de momentos insignificantes, mergulhos numa existência  incompreensível, notas de agradecimento, louvores a quem me faz sorrir, questões sem resposta e tormentos encurralados em becos sem saída. Este bicho ama palavras, despreza-as, embala-as, pontapeia-as, chora-as, canta-as. Usa e abusa delas aleatoriamente, brutalmente.
Porquê? Não sei.
Se gosto dele? É o meu bicho.

(E com isto lá se foi a História)

November 10, 2012

Londonthoughts#1

E foi assim que se passaram 20 minutos de uma manhã fria de Sexta-feira.

"Sento-me aqui na cadeira à janela do 3.º piso. Da escola. Da minha escola. Da minha escola em Londres.

Ainda hoje danço na ilusão que esta vida não me pertence. Que me embrulharam num cobertor vivo de autocarros vermelhos, metros frenéticos e camadas de pessoas sobre pessoas, atrás de pessoas, ao lado de pessoas.

Sento-me aqui na cadeira à janela do 3.º piso e escrevo. As nuvens teimam em esconder o sol que de vez em quando trespassa este vidro e nos ilumina os pensamentos. Está escuro agora - cá dentro - e as sombras das palavras são maiores que elas próprias. Sinto-me sombria e enferrujada, o inglês embacia-me a destreza  de expressão. Mas estou aqui, nesta cidade que me vai emprestar um futuro. Assim o espero.

O corredor está vazio, na sua longitude apática de luzes que reflectem no chão púrpura e portas atrás de portas. Porém, toda esta calma é efémera. Cedo estará repleto de almas de estudantes ou, provavelmente, só os seus corpos resistirão ao 'esforço' de aqui estar. Eu fujo dessa permanência sem sentido, agradeço todos os dias por estar a dançar nesta vida que ainda vejo a quilómetros de distância, e quando choro de saudade, a ingratidão sufoca-me. É assim que vivo. Apeguei-me à rotina, ao constante movimento, à dificuldade de atingir um destino. Fundi-me com esta cidade e com o mar de pessoas que se desloca em ondas constantes rebentando umas após as outras, sem cessar. Que somos nós senão vítimas da corrente? Há sempre algo que nos move.

E enquanto aqui escrevo, enquanto as palavras enjauladas por tanto tempo se libertam, sinto a acidez das lágrimas na garganta. É um reencontro. É o relembrar que a minha língua é incapaz de ser esquecida, de me abandonar. Porque sendo estas as melhores palavras, as minhas palavras - as que me separam de ser um ser vazio, um simples nada - nunca serei eu sem elas. E não tenciono morrer tão cedo.

Rute
9.11.2012"

May 20, 2012

o "posso?" está de volta.


É absolutamente tenebrosa a sensação de não ser lembrada. Assombra-me e aperta-me numa sofreguidão de indiferença. Será que chego sequer a assumir forma no pensamento de alguém que tem lugar cativo no meu? Este maldito desequilíbrio de presenças... chamo-lhe injustiça, insulto-o e rogo-lhe pragas. E valerá a pena? Há anos que chamo o nome de alguém que não me ouve, que olho nos olhos de alguém que não me vê, que encho espaços de mim com mobília que não me pertence. E tudo graças a uma vontade ardente que se arrasta comigo: quero existir na tua existência. E é esta mesma vontade que se desfaz quando me apercebo que caminho numa plataforma fina de falsas esperanças que constantemente me adormece e acorda. Sou inconcebível de existir em ti. Estou oceanos afastada do que te ocupa o pensamento e os sentidos. Ofereço-te palavras e horas de tempestades sentimentais. Escondo-me nelas. Nada em troca. Porra, porque continuas a vestir -te deste fantasma que venero e repugno, porque te vejo tão bem sem te ter, porque é que és objecto de sonhos e porque é que a tua sombra divaga tão inquietamente sobre mim? Carrego-te comigo na penumbra de uma amizade que provavelmente nem chegou a sê-lo, ou que se calhar até o foi. Pouco importa. Carrego-te. E nem te passo pela cabeça. 


Tenho esperança de um dia perceber tudo isto. De ser capaz de te contar a minha vida e de te lembrar que podíamos, de facto, ter existido reciprocamente na existência um do outro.
Acho que o blog está a morrer.

May 15, 2012

Regresso/partida (?)


Nasceu-me esta necessidade fervilhante de expirar palavras. Foi agora, aqui, num acesso histérico de saudade e nostalgia. A questão que surgiu também, em sincronia com esta necessidade, foi: o que dizer? Se essa questão tivesse forma era a minha sombra. E mais não digo sobre isto, porque é matar o tempo em insignificâncias  e eu bem que preciso dele.

Ultimamente tenho-me vindo a virar para páginas mais sombrias e gatafunhos de cadernos. Para ser sincera, ultimamente, as palavras mentais são as que mais falam, cá em cima, num recanto ao qual chamam mente. Deixei de escrever senão palavras de outrém e, inevitavelmente, tenho saudades minhas.Deixemo-nos de confusões palavrescas e insinuações sobre a essência do meu ser confuso. Tenho a ligeira impressão que a minha vida anda a mudar a página. É uma impressão do género das que faz cócegas aqui na barriga, me aperta o peito e me deixa tudo a remoer condesadamente cá dentro. E lá estou eu com palavras demasiado abstratas, quando prometi a mim mesma que me ia deixar disso. Ora vamos lá traduzir isto para português compreensível. Assusta-me. E assombra-me. Ponto. De que me serve tentar concentrar meio ano de vida numa página de blog?Aqui vai uma tentativa: Mudança atrás de mudança, e mais mudança para vir. Acabei de resumir vidas numa frase. Ou não, se reconhecermos que há casos de inércia crónica e conformação estagnada. - Eu sou realmente feita de divagações desnecessárias. Sem esquecer, claro, as constantes da vida, alicerces da mudança e de função insubstituível. Agradeço às pessoas amadas que ainda me aturam e depositam em mim toneladas de paciência, que desperdiçam olhos e ouvidos com as minhas palavras, que gastam palavras delas comigo e ainda guardam força para me levantar e abraçar de vez em quando. Agradeço à dança e ao teatro, canalizadores de emoções: não sei o que faria sem as horas de liberdade de expressão que me oferecem. Agradeço aos livros, pelo que lá têm escrito e por me deixarem lê-lo. Agradeço a quem os escreveu. Agradeço aos palcos que pisei e às pessoas que os pisaram comigo, companheiros de êxtase, adrenalina, paixão e felicidade puras. Agradeço à música por me lavar a alma daquilo que não consigo, por vezes, expressar no corpo e na voz. Agradeço a uma cidade mais a norte pelo frio acolhedor. Agradeço-vos a vocês, palavras, por ainda serem gratuitas e dispostas a ser escritas, às vezes cuspidas, pontapeadas, gritadas, sufocadas, cantadas e até lançadas sem rumo. Por fim, agradeço à inspiração, esse bicho agridoce sem horários estabelecidos. Acho que só lhe agradeço porque tenho medo que guarde ressentimentos se eu não o fizer, e me abandone de vez. 
O que ficou por dizer?


A nostalgia de me restarem apenas algumas horas com esta idade vai deitar-se comigo, e enroscar-se a mim como se estivessem menos dez graus e a nevar. 


É a vida e é o que me resta neste confronto sem sentido com uma parcela metafísica do meu subconsciente.Até qualquer dia dimensão cheia de nada, minha casa e destas divagações. Esqueci-me de te agradecer. Obrigada.