Palavras, palavras, palavras. Algo que combine, que pareça bonito. Que encaixe.
Cá dentro tenho uma voz muda que as chama. Mas elas são surdas. Vêm por instinto. O instinto ao qual se chama sexto sentido. Elas, as palavras, são o meu sexto sentido. Há dias que as sinto. Que tenho o designado 'intuito' de as chamar com a minha voz interior muda e elas têm o 'intuito' de me ouvir, mesmo sendo surdas. Há dias assim. E depois tenho os outros dias. Os chamados dias de cinco sentidos. O caso bicudo está no facto de eu ser altamente mimada. Habituei-me a ter uma voz interior muda que chama palavras surdas. Habituei-me ao instinto, habituei-me ao sexto sentido. As palavras mal habituaram-me. Estou mal-habituada. Choro nos dias de cinco sentidos porque me acho digna de ter os seis sentidos a tempo inteiro. Amuo quando fico presa nos becos sem saída de falta de creatividade. E não saio de lá, sento-me no chão molhado e gélido com falta de sentimentos e fecho os olhos perdida na inércia da escuridão. Nesses momentos, paraliso. Julgo-me dona de palavras surdas porque tenho uma voz interior muda. Onde é que isto já se viu? Estou a enlouquecer. E tudo se deve à porcaria do sexto sentido que me mal habituou. A droga das palavras viciou-me. Virei toxicodependente.
Também se deve a ti, embora não saibas que é a ti que me refiro. É, tens culpa! Bastou-te existir.