May 22, 2011

how I feel

Não sou escritora. Escrevo para calar o pensamento. Não sei acabar uma história. Farto-me dela a meio, irrito-me com os clichés, as personagens causam-me engulhos, a noção de tempo esvai-se, o espaço resume-se a nada. Não sou poetisa. Não sei escrever versos. Muito menos agrupá-los em estrofes. A estrutura é demasiado obtusa, acutila-me a mente e deixa-me a sangrar de desespero. Não sou nada. As palavras frustram-me, a gramática é demasiado correcta para mim e tenho fobia a páginas em branco. Sou um depósito de palavras inquietas e ideias confusas que não aguentam tempo nenhum na gaiola do pensamento. Vivem aos saltos cá dentro, num turbilhão que me rouba o Norte e me impede de pensar direito. Cuspo palavras, pontapeio palavras, choro palavras, rio palavras, grito palavras. Não as domino, elas dominam-me. Vivo em função delas e para elas. Elas sobrevivem-me.

Não sou escritora. Não sou poetisa. Não sou nada.

Rute.

May 16, 2011

Despedida

Desde ontem que o meu coração parece bater em contagem decrescente e na minha cabeça permanece uma sombra que me diz, constantemente: último dia com 15 anos. É uma estupidez.
Se fosse continuamente assombrada por esta sensação de finitude, muito me cheira que andaria a fazer tudo menos a viver.
Foi apenas mais um ano, 365 dias. Amanhã é mais um dia como os outros com a excepção de açambarcar aquele sentimento de felicidade nostálgica que me faz sentir incompreendida. Mas e os dias que passaram? Canso o pensamento a remexer nas memórias e nada de homogéneo se constrói diante dos meus olhos. Posso dizer que aos quinze anos experienciei o melhor concerto (senão mesmo momento) da minha vida. Fui marcada pela música e tomei parte de uma grande família. É talvez uma das memórias que se mantém omnipresente. Posso dizer que cresci, mas quem não cresce? Posso dizer que sorri e chorei, mas quem não sorri e não chora? Sinto-me a pontapear palavras sem harmonia, mas que se lixe. Ah, descobri que sou criadora de coisas confusas, e que o meu motor de palavras anda lento porque lhe falta inspiração. A saudade construiu casa em mim, e aqui permanece. Tenho muitas páginas brancas que foram choradas por quererem palavras e não as terem. Tive mais dança que nunca e foi o que me moveu. Isso e palcos, e expressão e sentimento. São a minha praia e para mim é verão o ano inteiro. Tenho pessoas novas que caminham paralelamente a mim em diferentes planos. Cruzamo-nos num deles e somos muito felizes - partilhamos arte. Sonhei, mas quem não sonha? Sofri desilusões, mas quem não sofre? Descobri que escrevo para calar o pensamento. Que, às vezes, quando estou à frente de alguém, me sinto a passar-lhe ao lado. Mas também tenho as minhas pessoas, que estão longe e estão perto, que estão perto e estão mesmo perto. Quero-as sempre. Embalei os ouvidos de música. Falei que me fartei, mas também me calei vezes demais. Aprendi a apreciar o silêncio que me invade o pensamento, mas na maior parte das vezes não dura tempo nenhum. Desassosseguei-me. Porque é isso que eu faço.

Espero que os próximos 365 dias sejam algo de bom.

Adeus quinze anos. Vou ter saudades.

May 08, 2011

David Fonseca


Grande David Fonseca. Foi épico, memorável, extraordinário. Fizeste o meu dia valer a pena. Não são precisas mais palavras.

You secretly made
Castles of sand that you hide in the shade
But you cannot hold the tides that break them
And you build them all over again


May 01, 2011

Vazio de ti.

É como um aspirador cá dentro, a roubar-me o ar. A sugar-me as memórias, a lembrar-me do vazio condensado que fica a tomar o lugar delas.

Tenho saudades tuas, e contigo da inocência. Lembro-me de me sentir triste e ficar melhor por saber que te tinha. Agora levaram-me as lembranças e nada tenho.

Hibernaste-me num canto do teu coração grande. Deixaste entrar tanta gente que fiquei pequenina. Estico o braço mas não te atinjo. Às vezes mexo-me tanto que me olhas e dizes: é verdade, estás aqui, existes. Mas depois distrais-te com a imensidão de sentimentos e pessoas que te preenchem a cabeça e o coração. E lá fico eu, pequenina outra vez.

Quando te tenho à minha frente, sinto-me a passar-te ao lado.

No meu coração, o vazio de ti é muito grande.

Em mim, um aparente deserto esconde um vasto oceano. Mas basta soprares um pouco de areia e afogas-te.