Desde ontem que o meu coração parece bater em contagem decrescente e na minha cabeça permanece uma sombra que me diz, constantemente: último dia com 15 anos. É uma estupidez.
Se fosse continuamente assombrada por esta sensação de finitude, muito me cheira que andaria a fazer tudo menos a viver.
Foi apenas mais um ano, 365 dias. Amanhã é mais um dia como os outros com a excepção de açambarcar aquele sentimento de felicidade nostálgica que me faz sentir incompreendida. Mas e os dias que passaram? Canso o pensamento a remexer nas memórias e nada de homogéneo se constrói diante dos meus olhos. Posso dizer que aos quinze anos experienciei o melhor concerto (senão mesmo momento) da minha vida. Fui marcada pela música e tomei parte de uma grande família. É talvez uma das memórias que se mantém omnipresente. Posso dizer que cresci, mas quem não cresce? Posso dizer que sorri e chorei, mas quem não sorri e não chora? Sinto-me a pontapear palavras sem harmonia, mas que se lixe. Ah, descobri que sou criadora de coisas confusas, e que o meu motor de palavras anda lento porque lhe falta inspiração. A saudade construiu casa em mim, e aqui permanece. Tenho muitas páginas brancas que foram choradas por quererem palavras e não as terem. Tive mais dança que nunca e foi o que me moveu. Isso e palcos, e expressão e sentimento. São a minha praia e para mim é verão o ano inteiro. Tenho pessoas novas que caminham paralelamente a mim em diferentes planos. Cruzamo-nos num deles e somos muito felizes - partilhamos arte. Sonhei, mas quem não sonha? Sofri desilusões, mas quem não sofre? Descobri que escrevo para calar o pensamento. Que, às vezes, quando estou à frente de alguém, me sinto a passar-lhe ao lado. Mas também tenho as minhas pessoas, que estão longe e estão perto, que estão perto e estão mesmo perto. Quero-as sempre. Embalei os ouvidos de música. Falei que me fartei, mas também me calei vezes demais. Aprendi a apreciar o silêncio que me invade o pensamento, mas na maior parte das vezes não dura tempo nenhum. Desassosseguei-me. Porque é isso que eu faço.
Espero que os próximos 365 dias sejam algo de bom.
Adeus quinze anos. Vou ter saudades.