March 17, 2011

Pôr-de-ti

Vi-te caminhar para fora da minha vida como quem vê o sol a pôr-se no mar. Contemplei-te aos poucos, a escurecer e a pintar o céu e as nuvens em tons inebriantes de um alaranjado que escurece. O pôr-de-ti foi lento – ficaste gradualmente cada vez mais pequenina no meu campo de visão. Já brilhaste tanto, já me iluminaste a vida. Aos poucos deixei-te ir, continuavas comigo numa porção mais pequena mas reconfortante, e não liguei àquela sensação de falta de luz, de falta de ti que me assombrava vagarosamente. Escureceste e escureceste-me. Mas o céu estava tão bonito como uma tela endeusada. Perdi-me nas nuvens rosadas e nas sombras de um azul quase inexistente, enquanto tu ficavas cada vez mais pequenina. A necessidade de luz intensificou-se enquanto escurecias e embelezavas o céu. Depois, como de um sonho, acordei e vi que quase já não brilhavas, eras um pequeno ponto de luz na minha vida, que flutuava na linha das águas. Chamei por ti, quando te vi desaparecer no horizonte. Não me ouviste, ou não me quiseste ouvir. Sem alternativa possível, emprestei-te ao mar. Quero que nasças outra vez. Quero que ele te entregue de volta.

March 16, 2011

#prayforJapan

Perdemo-nos em queixas sobre nós próprios, o que somos, o que temos, o que nos rodeia. Abandonamos a nossa essência em labirintos intermináveis de egocentrismos infundados. Olhamos para nós, cegamo-nos para os outros. Somos eternos insatisfeitos. A insatisfação não é algo totalmente negativo quando bem fundamentada e em doses reguladas que se adequam à nossa realização pessoal. Quando o que somos não nos agrada, a insatisfação deve ser algo que nos move à mudança e não uma desculpa para uma inércia de movimento, um turbilhão de queixas e pena da nossa pessoa. Se temos tecto, calor humano, amor na nossa direcção, saúde e sorrisos, qual a razão de queixa? Qual a razão de rebuscarmos o que somos em busca de algo em que podiamos ser melhor, algum azar, ou ponta de infelicidade passageira? Às vezes tais coisas não dependem de nós, mas parte de nós a vontade de as ultrapassarmos. A vida não nos cai do céu, destinada a ser perfeita e totalmente feliz. Às vezes o ser humano tem de sobreviver para depois viver.

Enquanto o chão não me tremer debaixo dos pés, as paredes não me caírem, as pessoas a quem dou amor não ficarem debaixo delas e um tsunami não submergir tudo o que julgava ter, eu vou ser muito feliz. Deram-me os alicerces que suportam a felicidade. Agora só tenho de a alcançar.

#prayforJapan.

March 14, 2011

excerto 2

Debater-me com a ideia de escrever algo profundo que faça as palavras parecerem peças de puzzle extremamente bem encaixadas, está a desencaixar-me toda. Pontapear palavras para uma página em branco numa conjugação ilógica de sentimentos, é algo que me apetece fazer. Muito. Apetece-me falar aquele dialecto, muitas vezes impossível de descodificar, que viaja desde a região mais interior de mim para um espaço vazio. E continua ilegível. Fazê-lo seria como tirar uma fotocópia a sentimentos e colá-los na testa de alguém: as pessoas que passassem continuariam sem perceber uma vírgula. Portanto não vou fazê-lo. A piada de escrever está precisamente na passagem do abstracto para o concreto, neste caso, concretizar emoções, ideias e sentimentos, em palavras. Um escritor, ou alguém que escreve, não passa de um tradutor. Falamos abstracto, traduzimo-lo para concreto. Fazemos a tão problemática passagem do invisível para o visível, do incompreensível para o compreensível, do ilegível para o legível. Fazemo-lo para nós, para nos percebermos – às vezes para nos confundirmos mais, mas enfim. Fazemo-lo para os outros, como forma de comunicação – a mais ágil que temos. Estou a fazê-lo para ti.

March 05, 2011

Estragamo-la. Estragamo-nos.

Se a perfeição não existe qual é a ideia do ser humano ao tentar alcançá-la? Questões como esta são tão angulares que me acutilam a mente. Alcançar a perfeição traduz-se em tentar saltar de uma margem de um rio para outra, sabendo que a força física que nos foi confinada é imcompetente para o fazer. Atingir a perfeição assemelha-se a fazer o impossível. No entanto continuamos inebriados na ideia de a alcançar. Lutamos, corremos caímos pelo caminho, voltamos para trás, tentamos de novo. Choramos lágrimas em vão em busca do intocável, do magistral, do incontestávelmente perfeito. Fazemos coisas em vão. No fundo, no fundo, para nós, o auge da questão é estar cada vez mais perto da perfeição.

Perfeita perfeita, só a natureza. E depois apareceu o homem, e deixou de o ser. Estragamo-la. Estragamo-nos.

March 02, 2011

Coisas confusas

Já vai longe o dia em que preenchi pela última vez uma página destas com palavras. E com isso já lá vai muita coisa. Vão muitos dias, muitas horas, se falarmos em minutos ainda mais vão, então em segundos não se fala e em milésimos de segundo nem sequer se pensa.
Os dias de sol voltaram e com eles os sorrisos. O ar deixou de ser gélido e de cortar a pele, para passar a ser só frio e a ruborizar o nariz.
Ando para aqui a enrolar-me com pensamentos e ideias em vão para esta página quase em branco, despida de palavras interessantes.
Chamem-lhe actualização, chamem-lhe conjuntura de palavras sem sentido, nada abonadas em beleza e muito menos apelativas. Chamem-lhe tentativa falhada e desorganizada de cenas aleatórias.
Sou criadora de coisas confusas. Ponto.