Podemos empacotar a vida.
Os livros que nos construíram os sonhos, nos transportaram para fora de nós, nos marcaram um dia, um mês, um ano - empilham-se. Pesam nos sacos fortes, mas carregam-se. Virginia Woolf, a vida dela condensada em palavras, a minha sensação de impermanência e conceito de genialidade que delas brotaram - num saco. Charles Dickens e as suas palavras que, como padrões de papel de parede vitoriano, se entrelaçam e - tenho vergonha em dizê-lo - me cansam. Nunca fui grande fã de padrões multiplicados de cornucópias escarlate. Não importa, no mesmo saco. Saramago, tesouro literário do país, crítico aguçado do mesmo país, abrindo olhos a cidadãos desse mesmo país. Shakespeare que todos os dias descubro, e cada vez mais me apaixona, e me faz querer pisar palcos, roubar a homens papéis de mulher, ou gritar, validamente, "Estou a morrer!" quando de facto já devia estar silenciada de dor. Shakespeare faz isto possível. E tantos mais livros cujas palavras me definiram horas de vida - empilhados, transportados.
O que trazemos a cobrir o corpo - reflexo da nossa identidade ou falta dela - dobra-se, torna-se pequenino. Inanimadas numa mala que as comprime, transportamos calças que andaram em Trafalgar Square e no Rossio, que sentaram em cadeiras felpudas de teatros e frias de salas de aula. Camisolas que viram o avião levantar voo vezes que já não consigo contar; casacos que a mãe abraçou em jeito de despedida contrariada, mas que "tem-que-ser"; cachecóis que aconchegaram o peito da corrente fria de saudade. Saias que se vestiram para o Natal, o aniversário do avô, ou os dias em que a disposição foi solarenga. Cabe tudo em malas rígidas que as comprimem e lhes sugam o ar.
As malas que carregam documentos de identidade que tão pouco dizem sobre nós. Que são nomes, que são números? Que são? Que somos? A mochila da escola que aos ombros leva conhecimento. O saco de pano que iniciou uma conversa, e amizade - espero eu - para vida. Os quadros de fotografias que materializam memórias e carregam "play" em histórias de um passado que se reproduz até se enevoar em esquecimento. Cabe tudo. Até a música que nos serve de banda sonora, se compacta virtualmente e se carrega num rectângulo incompreensível de tecnologia. Cabe tudo.
Se a vida se compacta, se divide, se carrega vida fora, muda de espaço, de tempo, permanece, se esquece,... Que somos nós se não a sua sombra? Que somos nós se não o seu condutor? Ambos? Nenhum? Coleccionamos objectos, em tentativas que eles nos digam quem somos. Não somos os objectos, somos o que eles nos dizem.
Rute
15/2/2014
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