August 09, 2015

'Um dia em Lisboa, seguindo Pessoa' ou '8/8/2015: Em rasto Pessoano'

Ontem recalquei os passos - quiçá! - do poeta lisboeta na sua cidade sofrida e amada. O roteiro Pessoano que me encheu a alma começou na inigualável e acolhedora Casa Fernando Pessoa. Plantada e revitalizada em pleno Campo de Ourique, encontra-se de porta aberta aos mais ávidos apaixonados inquiridores. Nas paredes brancas da fachada as palavras belas inclinam-se e tocam-nos de viés. Estendem-se a fio quadras, excertos, mapas e aforismos que assim expostos tão de fronte teriam, se ainda vivo, agoniado o autor. (De onde estiver que já as olhe sem aflições). Cá para mim a tinta negra falou bem alto, mesmo que silenciosamente e sem incomodar. 
Já passada a porta verde original que tantas vezes Fernando e Pessoa, homem e génio, terá aberto e fechado a pensar, entra-se numa atmosfera de luz. A obra de remodelação foi bem desempenhada, já que em nada desmoronou o espírito da casa. Nas palavras aliciantes de um orador nato somos transportados material e imaterialmente pela vida do poeta. Pelo seu espaço de quinze anos de vida e pela sua alma intemporal o percurso é sinuoso e emocionante. Pelos olhos de Almada vê-mo-lo a cores vestido à Orpheu. Com uma cópia original de "Mensagem" entre mãos sentimos o raspar do seu lápis perfeccionista. (Aqui as lágrimas ameaçam-me num ardor atrás dos olhos e uma ligeira acidez no nariz). No minimalismo dos seus pertences observamos a imensidão do seu espírito. No ar o génio, na cama o homem. Como em papel e palavras tanto se desdobrou!

(Por vezes desencontrei-me assim parada, a respirar fundo). 

De lá subimos ao sonhatório, desta vez um sótão físico e iluminado (oscilando do meu mais usual imaginário e predominantemente nocturno). Aqui deliciámo-nos com mais histórias curiosas de um amor mistério a Ofélia já desvendado, um Álvaro de Campos a sensor que fala para nós, e um devoto pessoano que tanto e tão amavelmente nos diz. 
Ainda em deslumbre recalco novamente as escadas - sim, que depois de Pessoa as calcar, já o foram - e regresso, com um desvio pelo quarto, ao rés-do-chão. Dá-se por terminada a visita, mas não a sorte. Por mais vinte minutos de conversa, sou guiada  em aprendizagem e com simpatia por Ricardo Belo de Morais e o 'seu' Pessoa. Agradeço muito a sua orientação. 

[Parto então com um saco cheio de livros e muitas palavras no peito, para uma caminhada pela cidade].

Agosto aquecia o corpo a 30º e realçava a cor das casas no sobe e desce de ruas. As encostas sorriam e um afluente largo de turistas ia desaguar ao Tejo. A 'minha pátria' mal se ouvia. O pai, de câmara na mão, registava fotograficamente a beleza. (E eu amava a cidade, amava a cidade a cada passo).
Parámos na Brazileira e imaginei-o no mesmo canto, sentado pensando, bebendo e fumando, escrevendo - tanto em tertúlia como em solidão. Fitámos o mesmo tecto. Na Livraria Bertrand, senti-lhe parte da falência crónica na minha dolorosa resistência à tentação de adquirir livros. (Ali estive em casa!)
Largo de São Carlos - local de nascimento, 4º andar, 1888. De lá também se pode dizer que saí, metaforicamente, de livro na testa. (Ah Pessoa, que até de livro encostado aos olhos tu vias!)
Nas ruas da Baixa, a calçada escorrega de tantos passos que lá deste e de tão polida que a deixaste. (Olha falo agora para ti diretamente, neste desvio tão natural e desapercebido; chamem-me louca que não me importo, já Shakespeare dizia...) À Bernardo Soares andei desassossegadamente fitando o Tejo reluzente, e subi pela penumbra da Rua dos Douradores - por quantos quartos que desabitaste passei? (Quero viver na Baixa. Que Londres se lixe temporariamente! Tenho esta febre alta de viver na Baixa - e paradoxos destes não se ignoram.) Passei por uma placa de mármore em que gravado se lia 'Antiga Casa Pessoa'. Escreveste-te pela cidade toda, tens-te assim - desdobrado - numa multiplicidade de esquinas.

Ainda sem frio anoiteceu e no Leão Pobre, agora D'Ouro, jantei. E depois deixei Lisboa mas levei-te comigo. 

Rute da Costa

Nota: O acordo ortográfico é como a Coca-cola: 'primeiro estranha-se, depois entranha-se'. Infelizmente enquanto algumas palavras já se entranharam, outras ainda se estranham.

No comments:

Post a Comment

leave a thought