January 26, 2011

Motor de Palavras.

Uma página em branco consegue ser terrivelmente assustadora. Principalmente quando se está a comer cereais sem leite à colher e a espirrar de dois em dois minutos, como estou agora. Pronto, estou a disparatar, consegue ser assustadora muitas mais vezes do que quando se está a comer cereais sem leite à colher e a espirrar de dois em dois minutos. É aquela tempestade de pensamentos, ideias e sentimentos que não se entende cá dentro e anda à luta para ver qual chega primeiro aos dedos, e depois à folha (ou à página neste caso). É aquela tempestade que me causa a sensação assustadora. Mas o pior é quando os sentimentos não conseguem mesmo transformar-se em palavras, chegar aos dedos e passar para a folha. Parece que o motor se lhes avariou e andam doentes, cheios de dores e comichões porque não atingem a meta e se mantém presos cá dentro. Consequentemente sustento eu as dores e as comichões dos sentimentos e a solução é arranjar-lhes o motor. Acontece que a chave que arranja o motor dos sentimentos e lhes permite sair daqui de dentro, na forma de palavras, para a folha em branco, é uma vadia. Às vezes foge, esconde-se, não quer saber de mim. Essa chave é a inspiração e cá para mim a minha é bipolar. Ou vem toda contente ao meu encontro e os sentimentos e as ideias fluem como água nascente de dentro da gaiola de mim própria, para a liberdade da folha; ou desaparece sem avisar. Assim, de um momento para o outro, encrava-me a vida. Lá fico eu inebriada em sentimentos, que muitas vezes conseguem tirar-me do sério. Sem alternativa para sairem de mim para a folha, os coitados apanham boleia das lágrimas. Ou dos sorrisos, eventualmente. A verdade é que estes meios de transporte de sentimentos não são tão eficazes como a escrita. Falo por mim. E por quem quiser aliar-se a mim.

Inspiração, da próxima vez que quiseres dobrar a esquina para o lado obscuro da tua dupla personalidade, deixa um bilhete com uma semana de antecedência. Só mesmo para ver se consigo domar os sentimentos.

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