Não sou escritora. Escrevo para calar o pensamento. Não sei acabar uma história. Farto-me dela a meio, irrito-me com os clichés, as personagens causam-me engulhos, a noção de tempo esvai-se, o espaço resume-se a nada. Não sou poetisa. Não sei escrever versos. Muito menos agrupá-los em estrofes. A estrutura é demasiado obtusa, acutila-me a mente e deixa-me a sangrar de desespero. Não sou nada. As palavras frustram-me, a gramática é demasiado correcta para mim e tenho fobia a páginas em branco. Sou um depósito de palavras inquietas e ideias confusas que não aguentam tempo nenhum na gaiola do pensamento. Vivem aos saltos cá dentro, num turbilhão que me rouba o Norte e me impede de pensar direito. Cuspo palavras, pontapeio palavras, choro palavras, rio palavras, grito palavras. Não as domino, elas dominam-me. Vivo em função delas e para elas. Elas sobrevivem-me.
Não sou escritora. Não sou poetisa. Não sou nada.
Rute.
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