Nasceu-me esta necessidade fervilhante de expirar palavras. Foi agora, aqui, num acesso histérico de saudade e nostalgia. A questão que surgiu também, em sincronia com esta necessidade, foi: o que dizer? Se essa questão tivesse forma era a minha sombra. E mais não digo sobre isto, porque é matar o tempo em insignificâncias e eu bem que preciso dele.
Ultimamente tenho-me vindo a virar para páginas mais sombrias e gatafunhos de cadernos. Para ser sincera, ultimamente, as palavras mentais são as que mais falam, cá em cima, num recanto ao qual chamam mente. Deixei de escrever senão palavras de outrém e, inevitavelmente, tenho saudades minhas.Deixemo-nos de confusões palavrescas e insinuações sobre a essência do meu ser confuso. Tenho a ligeira impressão que a minha vida anda a mudar a página. É uma impressão do género das que faz cócegas aqui na barriga, me aperta o peito e me deixa tudo a remoer condesadamente cá dentro. E lá estou eu com palavras demasiado abstratas, quando prometi a mim mesma que me ia deixar disso. Ora vamos lá traduzir isto para português compreensível. Assusta-me. E assombra-me. Ponto. De que me serve tentar concentrar meio ano de vida numa página de blog?Aqui vai uma tentativa: Mudança atrás de mudança, e mais mudança para vir. Acabei de resumir vidas numa frase. Ou não, se reconhecermos que há casos de inércia crónica e conformação estagnada. - Eu sou realmente feita de divagações desnecessárias. Sem esquecer, claro, as constantes da vida, alicerces da mudança e de função insubstituível. Agradeço às pessoas amadas que ainda me aturam e depositam em mim toneladas de paciência, que desperdiçam olhos e ouvidos com as minhas palavras, que gastam palavras delas comigo e ainda guardam força para me levantar e abraçar de vez em quando. Agradeço à dança e ao teatro, canalizadores de emoções: não sei o que faria sem as horas de liberdade de expressão que me oferecem. Agradeço aos livros, pelo que lá têm escrito e por me deixarem lê-lo. Agradeço a quem os escreveu. Agradeço aos palcos que pisei e às pessoas que os pisaram comigo, companheiros de êxtase, adrenalina, paixão e felicidade puras. Agradeço à música por me lavar a alma daquilo que não consigo, por vezes, expressar no corpo e na voz. Agradeço a uma cidade mais a norte pelo frio acolhedor. Agradeço-vos a vocês, palavras, por ainda serem gratuitas e dispostas a ser escritas, às vezes cuspidas, pontapeadas, gritadas, sufocadas, cantadas e até lançadas sem rumo. Por fim, agradeço à inspiração, esse bicho agridoce sem horários estabelecidos. Acho que só lhe agradeço porque tenho medo que guarde ressentimentos se eu não o fizer, e me abandone de vez. O que ficou por dizer?
A nostalgia de me restarem apenas algumas horas com esta idade vai deitar-se comigo, e enroscar-se a mim como se estivessem menos dez graus e a nevar.
É a vida e é o que me resta neste confronto sem sentido com uma parcela metafísica do meu subconsciente.Até qualquer dia dimensão cheia de nada, minha casa e destas divagações. Esqueci-me de te agradecer. Obrigada.
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