É absolutamente tenebrosa a sensação de não ser lembrada.
Assombra-me e aperta-me numa sofreguidão de indiferença. Será que chego sequer
a assumir forma no pensamento de alguém que tem lugar cativo no meu? Este
maldito desequilíbrio de presenças... chamo-lhe injustiça, insulto-o e rogo-lhe
pragas. E valerá a pena? Há anos que chamo o nome de alguém que não me ouve,
que olho nos olhos de alguém que não me vê, que encho espaços de mim com
mobília que não me pertence. E tudo graças a uma vontade ardente que se arrasta
comigo: quero existir na tua existência. E é esta mesma vontade que se desfaz
quando me apercebo que caminho numa plataforma fina de falsas esperanças que
constantemente me adormece e acorda. Sou inconcebível de existir em ti. Estou
oceanos afastada do que te ocupa o pensamento e os sentidos. Ofereço-te
palavras e horas de tempestades sentimentais. Escondo-me nelas. Nada em troca.
Porra, porque continuas a vestir -te deste fantasma que venero e repugno,
porque te vejo tão bem sem te ter, porque é que és objecto de sonhos e porque é que a tua sombra divaga tão inquietamente sobre mim? Carrego-te comigo na
penumbra de uma amizade que provavelmente nem chegou a sê-lo, ou que se calhar
até o foi. Pouco importa. Carrego-te. E nem te passo pela cabeça.
Tenho esperança de um dia perceber tudo isto. De ser capaz de te
contar a minha vida e de te lembrar que podíamos, de facto, ter existido reciprocamente
na existência um do outro.
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