May 20, 2012

o "posso?" está de volta.


É absolutamente tenebrosa a sensação de não ser lembrada. Assombra-me e aperta-me numa sofreguidão de indiferença. Será que chego sequer a assumir forma no pensamento de alguém que tem lugar cativo no meu? Este maldito desequilíbrio de presenças... chamo-lhe injustiça, insulto-o e rogo-lhe pragas. E valerá a pena? Há anos que chamo o nome de alguém que não me ouve, que olho nos olhos de alguém que não me vê, que encho espaços de mim com mobília que não me pertence. E tudo graças a uma vontade ardente que se arrasta comigo: quero existir na tua existência. E é esta mesma vontade que se desfaz quando me apercebo que caminho numa plataforma fina de falsas esperanças que constantemente me adormece e acorda. Sou inconcebível de existir em ti. Estou oceanos afastada do que te ocupa o pensamento e os sentidos. Ofereço-te palavras e horas de tempestades sentimentais. Escondo-me nelas. Nada em troca. Porra, porque continuas a vestir -te deste fantasma que venero e repugno, porque te vejo tão bem sem te ter, porque é que és objecto de sonhos e porque é que a tua sombra divaga tão inquietamente sobre mim? Carrego-te comigo na penumbra de uma amizade que provavelmente nem chegou a sê-lo, ou que se calhar até o foi. Pouco importa. Carrego-te. E nem te passo pela cabeça. 


Tenho esperança de um dia perceber tudo isto. De ser capaz de te contar a minha vida e de te lembrar que podíamos, de facto, ter existido reciprocamente na existência um do outro.

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